ANESTESIA SOCIAL
Indiferença! Essa é a palavra que define a reação da maioria dos estadunidenses em relação à morte do ex-governante da Líbia, Muammar Kadafi. Aqueles que acreditam religiosamente que a missão dos EUA é democratizar Oriente e Ocidente, Norte e Sul, respiraram aliviados mas, nem o noticiário colaborou para que eles gastassem mais do que oito minutos debruçados sobre o assunto. Kadafi foi apenas mais um "terrorista", adjetivo usado indiscriminadamente pelos americanos para designar qualquer pessoa ou governante que se insurge contra a supremacia dos Estados Unidos, a ser eliminado. Antes de Kadafi, houve Bin Laden, terrorista "made in USA" para combater o arquinimigo russo. Antes de Bin Laden, Saddam Hussein, antes de Saddam...Nessa lista há também presidentes eleitos democraticamente. Salvador Allende, do Chile, é um deles.
Os canais de televisão apenas mostraram as reações oficiais e alguns republicanos ensaiando indignação. Comentaristas apáticos se limitando a mostrar imagens das TVs árabes. A insurgência grega ganhou, na FoxNews e na ABCNews, bem mais tempo do que Kadafi.
Na verdade, a reação lembra a mesma indiferença com a qual a sociedade brasileira reage quando a polícia de qualquer estado mata um "bandido". Substitua a palavra "terrorista" pela palavra "bandido" e você vai saber exatamente o que quero dizer.
No caso dos Estados Unidos, o comportamento de indiferença diante da morte do "outro", do não-igual, é fruto de uma cultura que se forjou na guerra. Afinal de contas, esse país está num campo de batalha há exatos 235 anos, desde a Guerra da Independência, iniciada em 1776. A partir daí, se não há um conflito mundial para mandar os jovens, não se preocupe, os EUA cria um, nem que seja local. A lista é grande e conhecida.
A impressão é de que é uma sociedade anestasiada diante do que acontece além de seus limites terrotoriais. E ssa é uma das principais características dos impérios. Decadentes, ou não.
SEM MÁSCARAS
Dessa vez o presidente Barack Obama e a secretária de estado Hillary Clinton nem tentaram disfarçar perplexidade, a exemplo do que ocorreu quando o terrorista Bin Laden foi morto em Abbotabad, no Paquistão, no smestre passado.
Hillary fez um pequeno teatro em frente aos jornalistas. Seu assessor traz um celular com a notícia e ela diz, simplesmente " Wow" ("uau"numa tradução livre). Essa reação fria levanta a suspeita de que Hillary já sabia que Kadafi seria assassinado em pouco tempo. Afinal de contas, ela esteve na Líbia, em "viagem-surpresa", há menos de uma semana e se reuniu com as autoridades do governo de transição, prometendo ajuda.
Às 14h09, hora de Washington (16h09 em Brasília) foi a vez de Obama. Ele se deu ao trabalho de ir aos jardins da Casa Branca para fazer uma declaração burocrática e insôssa. Disse ao mundo, até de forma solene, o óbvio: "A morte de Muamar Kadafi põe fim a um capítulo doloroso da história da Líbia", E, como sempre acontece, prometeu ajudar o país.
Mais um pouco e a platéia adormecia.
O PREÇO DA MORTE
A morte de Kadafi custou exatos dois bilhões de dólares. Essa é a quantia que EUA já destinou à OTAN, força armada que, na sua composição, tem conta com 67% de soldados americanos. Desde junho, a OTAN vem bombardeando indiscriminadamente Trípoli e outras cidades importantes da Líbia.
O Partido Republicano, oposição a Obama e maioria na Câmara, vota sem titubear qualquer gasto com guerras, embora se recuse a aceitar o projeto de lei que pretende criar novos empregos.
Obama está apressado. Não quis esperar a primavera árabe chegar à Líbia. Talvez porque o outono já tenha começado. Ou, quem sabe, precisa eliminar outros governantes para recuperar popularidade e permanecer na Casa Branca.
QUEM MAIS
Vamos sair do noticiário e exercitar um pouco de ficção política. Uma sociedade indiferente e mais preocupada com a crise econômica e na manutenção de seu emprego talvez não perceba o esforço do presidente Obama na sua cruzada democrática. e, continue lhe negando popularidade.
Qual será a reação do presidente dos EUA? Mandar a Otan bombardear Damasco? Ou, empreender uma pequena viagem ao Caribe e tomar Cuba de assalto com barcos infláveis? Os barcos infláveis são sedutores. O Caribe fica mais azul no outono e haveria belas imagens dos barcos, sem contar os textos que fatalmente fariam referências ao "Granma", barco que um dia serviu a um grupo iniciar uma revolução em Cuba.
Sabe-se lá. Há mais mistérios entre o eleitor e as urnas do que supõem os candidatos.